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Entrevista concedida ao portal ABJ – Homem também chora

30/05/2017

Lia Costa

Especialistas falam sobre a importância do choro e o perigo da cultura patriarcal de censurar as lágrimas masculinas

Gustavo Santos, estudante, foi ensinado desde a infância que chorar é coisa de menina, porque é demonstração de fraqueza. Quando menino, caso caísse ou se machucasse, não chorava de jeito nenhum, pois pensava que tinha que ser forte. “Era angustiante”, lembra. Gustavo acreditou nisso por muitos anos, mas com o tempo entendeu que não há problema nenhum em demonstrar seus sentimentos. “Faz parte da vida. Lágrima é lágrima, sentimento é sentimento”, reflete.

Chorar ou não chorar: eis a questão. A percepção do choro como algo aceitável socialmente ou não é cultural e varia ao longo da história. Se hoje no Brasil é estranho o homem chorar enquanto a mulher tem livre acesso às lágrimas, na Grécia Antiga era o contrário. Luciene Bandeira, mestre em desenvolvimento humano, explica que a expressão dos sentimentos antigamente era algo masculino. “Com o refinamento, o chamado pudor, os atos que eram rotineiros passaram a ser mais discretos no âmbito privado”, afirma.

As lágrimas, portanto, ficaram restritas a intimidade de cada um. As famosas carpideiras da Era Vitoriana eram contratadas para chorar nos velórios porque era mal visto chorar em público em enterros, mesmo que este fosse do seu próprio filho. No século XX a situação se inverteu pela diminuição das fronteiras que separam a esfera pública e privada. É na primeira infância do menino que os padrões de comportamento considerado masculino são disseminados.

A terapeuta Dilene Ebinger explica que as expressões não expressas se alojam na carne e se transformam em dores. Para ela, o choro não é sinônimo de fraqueza, Muito pelo contrário, representa muita força. “Somente aquele que é centrado e sabe o que quer é capaz de expressar suas emoções com tranquilidade e segurança”, declara. Isso acontece porque esse indivíduo sabe que pode expressar suas emoções e continuará sendo aceito pelas pessoas ao redor.

A psicóloga clínica Brisa Nepomuceno explica que mulheres geralmente choram mais em resposta ao hormônio prolactina, envolvido com a amamentação, Apesar disso, todas o possuem a despeito do ato de amamentar. Por outro lado, altos níveis de testosterona podem inibir as lágrimas. Estudos apontam que mulheres com mais testosterona e menos prolactina choram menos na fase adulta. Até a adolescência meninos e meninas choram na mesma proporção. Luciene comenta que isso pode ter cunho cultural.

Tirar a oportunidade de choro contribui negativamente para a cristalização de emoções que ficam reprimidas na psique e podem pedir contas ao longo da existência. O psicólogo Flávio Mesquita explica que “engolir” o choro em uma situação de luto, por exemplo, pode protelar o mesmo. Além disso, da perspectiva psicossomática, a repressão de emoção pode ter repercussão fisiológicas como: câncer, doenças autoimunes, asma, entre outros.

Para Flávio, a frase “homem não chora” tem uma conotação de desejo ou pressão ideológica contaminada por uma cultura que tende a ser machista. Ela aponta para o masculino falando o que ele não deve fazer mais do que uma constatação do que ele não faz. Flávio explica que isso acarreta em um potencial danoso muito maior, pois pode gerar sentimento de inadequação no homem que percebe a capacidade de chorar. “Como que eu choro? Então não sou homem? Sim, o homem chora”, declara.

Dilene acredita que esse pensamento pode enrijecer, insensibilizar e trazer problemas para uma vida toda. Quando se chora, uma emoção está sendo transmitida. “Sua emoção é importante pra mim, tem significado e eu aceito e recebo”, esclarece. Dessa forma, o sujeito se sente aceito, amado e importante.

Link da imagem: https://goo.gl/NfhSOr

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