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Será que “calar-se” é mesmo a melhor atitude ?

30/03/2012

O tema “silêncio” frequentemente está a meu redor … seja por minha escolha, fruto da minha preferência a ambientes silenciosos ao invés de barulhentos, seja no setting terapêutico quando o cliente está ainda emaranhado nos arcabouços dos processos de recalque ou imobilizado frente a conteúdos que teimam em ficar “varridos para baixo do tapete” …

Isso é normal e até esperado na vida de um terapeuta. Mas nessa semana o “silêncio” esteve mais presente em minha vida, quase que gritando ao meu ouvido.

Eu assisti dois bons filmes a título de estudo de caso (adoro esse recurso, pois une o útil ao agradável). O primeiro foi Precisamos falar sobre o KevinWe need to talk about Kevin / asssita a um CLIPE – e o outro foi Silêncio de MelindaSpeak / CLIPE.

Ambos tem como um dos elementos subjacentes a todo o contexto o silêncio. Ambos também são repletos de temáticas do âmbito psicológico / psiquiátrico e merecem ser vistos por quem gosta. Poderíamos desenvolver uma série de perspectivas e de elementos relevantes nas duas histórias, mas por hora o meu foco fica na questão do silêncio, por razões que ficarão mais claras logo a frente.

Em Precisamos falar sobre Kevin, somos convidados a testemunhar todo o enredo de uma dinâmica familiar que acaba por ter um fim trágico, mas que vai sendo construído (muito bem, diga-se de passagem) desde antes mesmo do momento da concepção do sujeito em questão. É uma somatória de ocorrências, posturas e escolhas que vão lapidando o que vem a se conformar como um psicopata que protagoniza um massacre em uma escola de ensino médio.

“Viagem” holliwodiana ? Será mesmo ? O número de ocorrências parecidas com essa (mesmo que não tenhamos acesso a privacidade dos bastidores das famílias em questão) atesta justamente o contrário. Eva, a mãe de Kevin amarga um misto de sentimento de inadequação, despertencimento, fracasso e culpa que acaba por deixá-la absolutamente refém de Kevin, que tripudia dela, manipula e chantageia ao sabor de sua perversão. Sobretudo a culpa faz com que Eva se cale frente aos acontecimentos e o silêncio parace acabar por ser seu maior algoz.

Paradoxalmente, quando parece que ela se dá conta disso e profere a frase que dá título ao filme (… precisamos falar sobre o Kevin …) em um telefonema desesperado ao marido … já é tarde demais … Falar mais, seria estragar o filme.

Em Silêncio de Melinda, outra situação que infelizmente é muito mais freqüente do  imaginamos : o abuso sexual. Após ser vítima de um estupro, Melinda opta por calar-se. Recalca o mais fundo possível o drama e a angústia que vive. Usa esse recurso como um auto-flagelo ao mesmo tempo que uma penalização àquelas pessoas que não a acolhem nesse pedido de socorro, mas a armadilha é que quanto mais se cala, mais afasta e mais difícil fica acessá-la … que se torna ainda mais carente, em um ciclo vicioso sem fim e extremamente doloroso.

Passa-se praticamente um ano, em que tendo optado pelo silêncio, amarga agora a percepção dos outros como sendo a “estranha” e é marginalizada cada vez mais no processo de bullying que sofre dos colegas. Pais ausentes afetivamente complementam a receita para que o colapso não esteja muito longe de acontecer. A saída não podia ser outra … acontecimentos levam a que ela finalmente bote para fora, “vomite” o que a está envenenando e, finalmente o ciclo de auto-destruição começa a se desconstruir.

Desncessário dizer que isso acontece muito recorrentemente em terapia : a pessoa recalca e guarda até não conseguir mais e quando finalmente “explode” pela necessidade de expressar-se, ser ouvida, entendida e respeitada, passa a sentir uma melhora gigantesca assim como se diz no dito popular “tira um piano das costas” !

Muito bem, nessa semana eu recebi um presente que orbita a essa temática. Uma cliente minha com grande dificuldade em se expressar, em  falar sobre conteúdos mais profundos, chegou ao ponto de insight na terapia em que finalmente percebeu a necessidade de colocar-se e compartilhou comigo material privado do mais alto valor. Esse momento é muito gratificante para um terapeuta !

Sendo assim, eu quis fazer uma homenagem … um agradecimento público, mas ao mesmo tempo privado por que só ela sabe que ela é ela ! Obrigado pela confiança depositada e parabéns pela coragem de, finalmente, colocar isso tudo para fora !

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12 Comentários leave one →
  1. Marina Ribeiro Visconti permalink
    20/02/2014 18:44

    Sou terapeuta iniciante, venho aprendendo entre tropeços e acertos a arte dessa profissão. Meu primeiro cliente é um adolescente que mantêm- se ora calado ora compartilha sua vida de forma superficial e resoluta. Tal situação me desconcerta e angustia. Creio que minha inexperiência contribua bastante para que a terapia não flua. Gostaria de sugestões de como lidar com o silêncio na terapia.
    Grata

    • Flávio Mesquita permalink*
      21/02/2014 14:47

      Olá Marina! tudo bem ?

      Bem-vinda ao time ! Nossa profissão é cheia de nuances, singularidades … Náo existem respostas prontas, a máxima de que “cada caso é um caso” alcança sua máxima expressão de verdade no setting terapêutico.

      O silêncio pode ser um grande aliado na terapia, por vezes é indicativo de introspecção e profundo esforço de resgate de conteúdos, por vezes é sinal de esgarçamento do vínculo. Vai muito da sensibilidade de perceber, atuar e respeitar.

      Não tenha pressa. Não se lapida uma pedra preciosa ou se amadurece um bom vinho antes do seu tempo possível. Essa sua inquietação vai pavimento o caminho do seu desenvolvimento enquanto terapeuta … Te mantém em movimento.

      Vc está em supervisão ? Isso pode ajudar tanto no sentido da construção de estratégia terapêuticas, quanto no alívio da sua angústia.

      Um abç

  2. Marina Moreno permalink
    24/01/2013 09:36

    Excelente, como sempre, sua postagem e tb os comentários(ou desabafos). Att.Marina Moreno.

    • Flávio Mesquita permalink*
      24/01/2013 10:12

      Oi Marina !

      Obrigado pelo seu freqüente apoio ao BLOG !

      Abç

  3. viginia permalink
    14/12/2012 10:25

    OI FLAVIO EU AMEI ESTE ARTIGO ,SOU VITIMA DESTA SITUAÇÃO E AS VEZES PENSO QUE CHEGOU MEU FIM É DOLOROSO NÃO PODER SE EXPRESSAR DIANTE DAS SITUAÇÕES COTIDIANAS POR MOTIVOS QUE SÓ NOS PODEMOS SABER ,SEI LÁ EU TENHO MEDO QUE MEU FILHO SE PERCA NO MUNDO E EU O PERCA TAMBÉM AMO TANTO MEU FILHO SÓ EU O ENTENDO SÓ EU SOU SEU REFUGIO ,SERÁ? NÃO SEI TENHO MUITO MEDO.

    • Flávio Mesquita permalink*
      14/12/2012 13:33

      Oi Viginia,

      Obrigado por compartilhar.

      Só um toque : seria negligencia minha comentar mais pontualmente qualquer coisa a partir do seu breve relato, mas creio que fica evidente haver muita coisa a ser tratada ai nessa sua relação com seu filho. Sugiro que vc se debruce sobre o tema e tente estratégias diferentes e mais libertadoras !

      Abç

  4. Renata permalink
    28/11/2012 10:14

    Aff… é muito difícil falar, passo por um momento onde tenho muito a dizer e nenhuma coragem para confiar. Todos os dias penso que será melhor quando “compartilhar este material privado” e reconheço o esforço de quem me escuta com paciência aguardando meu tempo de tirar este piano da costa. Obrigada

    • Flávio Mesquita permalink*
      28/11/2012 14:02

      Pois é … difícil é sem duvida, ainda mais dependendo daquilo que está profundamente recalcado e do tempo que se investiu mantendo-se isso lá nos subterrâneos da alma, mas como vc mesma disse : onde tenho muito a dizer e nenhuma coragem para confiar, talvez esteja na hora de vc voltar a confiar e ver no que dá … escolha em quem confiar e se dê essa oportunidade … essa é minha opinião.

  5. Etelra permalink
    24/06/2012 18:00

    É sempre um prazer ler palavras sábias de profissionais comprometidos em ajudar outras pessoas nos seus processos de “saídas para respirar” no alvoroçado mar da vida. Eu, ao contrário tenho falado, falado sempre e muito. Às vezes sinto que muitos prefeririam até não escutar, para não sofrer ou para poder continuar sem atitudes. É dificil ajudar as pessoas com depressão ou outras várias síndromes que nos atordoam. Como o assunto é o silêncio, já pensei várias vezes em silenciar a dor da tristeza profunda, da angístia ou da “preguiça” ou cansaço de continuar tentando viver. A depressão mata aos poucos e a pior morte é aquele em que ainda se vive. Por isso pergunto: calar ou falar? Se ambas as formas ou atitudes continuam a nos deixar afogando na dor de uma doença invisível e algóz. Por enquanto, no silêncio ou falando, tento, pelo menos continuar lendo, esperando um ‘novo’, um insigth, uma luz…

    Obrigada,

    AMS

    • Flávio Mesquita permalink*
      24/06/2012 21:13

      Olá,

      Obrigado pela participação no BLOG.

      Vc toca em questões importantes e, sim, muito perturbadoras …

      Minha sugestão é : procure amparar-se para poder enfrentar essa situação. Não há porque não buscar ajuda e fazer desse caminho o menos desgastante possível.

      Falar sobre os conteúdos mais profundos da alma, em local apropriado, com a escuta devida e podendo elaborar sobre essas questões de forma adequada, ainda é a maneira mais eficaz de desconstruir “amarras” e sentir-se mais aliviada e plena para viver a vida que vc merece.

      Abç

  6. Douglas permalink
    30/03/2012 14:08

    Temos dificuldade em nos expressar, especialmente quando ao tentarmos o feedback não contribui ou estimula para que façamos isso de uma maneira assertiva… entretanto tenho tentado realizar este exercício. Afinal, ninguém aguenta um “piano” por muito tempo, nas costas, sozinho…

    • Flávio Mesquita permalink*
      30/03/2012 15:16

      Olá Douglas, prazer em te ver por aqui !

      O “piano” muitas vezes é pesado demais sim, exercitar a assertividade é uma necessidade até mesmo porque a expressão desse comportamento fica cada vez mais natural e as fronteiras que se estabelecem nas relações tendem a ir se ajustando para patamares sustentáveis pelas perspectivas de ambas (ou mais) partes. É um trabalho de formiguinha: tem que serfeito sempre!

      Um abç

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