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Recente aumento de “surtos” divulgados pela mídia – Entrevista concedida ao Jornal de Piracicaba

16/02/2012

Alguma coisa mudou no mundo?

Não há como não ter mudado … Penso que todos os processos que tem alguma influência sobre nós estão aceleradosou potencializados, desta forma o meio acaba tendo uma potência muito maior de interferir em nossas vidas. É como se estivéssemos muito mais vulneráveis aos acontecimentos, digo isso sob uma perspectiva psicológica. O “mundo” nos afeta muito mais … e nós nos deixamos afetar muito mais por ele.

Quer um exemplo ? Em 2004 tivemos um tsunami no Oceano Índico que contabilizou cerca de 230.000 mortes. Em 2011 foi a vez do Japão ser acometido por um terremoto seguido de um forte tsunami, embora haja discrepância na contabilidade de mortes, ela deve ficar na casa das 25.000.

Sem dúvida nenhuma, ambos acontecimentos foram catastróficos e extremamente desconcertantes, mesmo para quem estava apenas “do outro lado do mundo” …

Mas de qual deles você se lembra de ter visto mais imagens e vídeos, recebido mais informações e ter se sentido mais “afetado” por testemunhar os dramas vividos pelos sobreviventes e familiares de vítimas ? Veja que são apenas 7 anos de distância entre um fato e outro e o primeiro somou quase 10 vezes mais mortes do que o segundo …

É claro que o acontecimento no Japão teve muito mais cobertura midiática e dessa forma fomos assolados por informações, vídeos, imagens, relatos que acabam nos sensibilizando muito mais. Esse é um fenômeno sem volta. A informação é muito mais rápida e disponível a todos nós, mas o que fazemos com ela é que o problema.

Se ela servir como um constante agente estressor que fica, a todo momento, nos lembrando o como somos frágeis, vulneráveis e devemos nos proteger dos “males” que nos rodeiam, muito provavelmente esse sujeito, que concedeu à informação esse poder, vai desenvolver um quadro de instabilidade emocional.

Veja que o que faz a diferença é a maneira como a pessoa lida com a informação. Não se trata aqui de sugerir que a pessoa se torne uma alienada em prol de não estar vulnerável a este stress, mas que ela tenha o discernimento de saber filtrar e se postar de forma adequada frente ao problema.

Não podemos perder também a dimensão de que existe uma “indústria do medo” que se beneficia pela ideia de “fisgar” o sujeito pela ideia de que ele está prestes a sofrer as consequências de tudo que está crescendo a sua volta.

Para quem tem interesse sobre o assunto sugiro assistir ao fantástico documentário de Michael Moore chamado Tiros em Columbine (2002), onde ele investiga um massacre acontecido em uma escola nos EUA e compara a cultura desse país com seu vizinho o Canadá. Vale muito a pena assistir e saber mais sobre a cultura do medo …

Por que as pessoas estão perdendo o controle? Há explicação?

Na resposta à pergunta acima, eu criei a hipótese de que um dos fatores relevantes nesse processo é o excesso de pressão de informação e o significado a ele concedido pelo sujeito. Mas o ser humano é extremamente complexo e multideterminado, sendo assim não podemos banalizar uma teoria, investindo apenas em uma perspectiva …

Outro viés importante seria, talvez, tentar investigar onde ocorre com mais frequência esse tipo de acontecimento. É um fenómeno universalizado ? Ou existe uma maior concentração, por exemplo, em grandes centros urbanos ou locais que vivem sob a influência de algum outro fator desestruturante sob o critério de bem estar, tranquilidade, etc ?

Em psicologia eu costumo dizer de que aquela máxima de que “cada caso é um caso” tem sua expressão máxima de verdade, sendo assim, essas situações que aconteceram em um passado recente podem sim estar enredadas sobre uma mesma classe de fatores, mas também podem ter vertentes absolutamente subjetivas de cada um de seus protagonistas, portanto, há que se investigar …

Uma coisa que me parece ser universal é que vivemos sob uma ode de “falta de limites”… é como se pudéssemos (e devessemos mesmo!) nos sentir capazes de tudo. Não podemos mais envelhecer, não sentimos mais dores, não temos rugas, celulite, estrias, barriga, não perdemos a virilidade sexual … somos “super” em tudo. Sonhamos até com a possibilidade de não “precisar” morrer.

O entorpecimento, seja pela via lícita (álcool) ou ilícita (drogas de todos os tipos), estão cada vez mais solapando a integridade das pessoas em todo o mundo, numa busca vã pelo acesso ao prazer ilimitado …

Isso tudo vai aos poucos minando nossa referência existencial e vamos nos tornando uma caricatura de nós mesmos … E o preço que se paga é a falta de estrutura emocional, a inversão de valores e a carência de enfrentamentos adequados aos fatos inerentes à vida.

Nós nascemos, vivemos, envelhecemos e morremos … E no meio do caminho temos muitas conquistas e prazeres, mas também fracassos, perdas e degeneração, não há quem não tenha e não se preparar para isso parece ser extremamente danoso.

Talvez devêssemos parar “para fazer um balanço” do que estamos fazendo com nossas vidas de forma a poder nortear nossas prioridades e escolher objetivos mais adequados e, assim, viver a vida com mais intensidade, mas também com mais responsabilidade, conscientes de nossos limites e das consequências das ações empreendidas.

É estresse? medo? ansiedade?

Por que não os 3 juntos ? Vejamos, por exemplo, a vida em uma cidade com São Paulo ( eu posso falar de lá, pois sou paulista de nascimento e “fugi” de lá com 27 anos, ou seja a 19 anos, em busca de mais qualidade de vida). É extremamente comum encontrar relatos de pessoas que moram ou frequentam a capital, carregados de um sentimento negativo em relação ao ambiente onde vivem / trabalham.

As pessoas estão extremamente estressadas, pelo ritmo alucinante da rotina do dia a dia, pelo transito infernal, pela falta de cordialidade que existe no trato entre as pessoas. Existe um medo que parece onipresente na atitude das pessoas, que se sentem vulneráveis a assalto, sequestro relâmpago, enchentes, etc … E daí eu te pergunto : como não estar acometido por uma sensação de ansiedade numa situação como esta ?

Eu falei de São Paulo apenas por ser a minha realidade mais próxima, mas poderia estar falando do Rio de Janeiro, Nova York, Pequim ou Londres … cada uma com suas nuanças específicas de degradação de qualidade de vida pelo excesso de convívio e aglomeração.

Qualquer pessoa pode ter um surto?

A rigor … sim. Não há como proferir que fulano ou beltrano não sejam capazes, sob algum nível de um fator de stress, chegar a um surto. É claro que podem existir fatores propiciadores, sejam da esfera psicológica, metabólica, comportamental, social, ou seja, de toda a sorte de questões ligadas à estruturação de uma pessoa, que farão com que haja uma maior ou menor tendência a quadros como esse.

Mas também é lógico pensar que todas as pessoas tem seus limites e se esses forem ultrapassados, ela poderá desenvolver uma resposta comportamental que talvez nem ela mesmo se julgasse capaz de ter.

O que fazer para não chegar a esse ponto?

Isso talvez seja o mais importante de tudo, visto que é onde a pessoa pode “fazer a diferença” ou intervir em seu próprio benefício.

Mas paradoxalmente, não creio existir uma informação secreta, mirabolante ou que seja complexa ou muito difícil de se por em prática … Acho que faz parte da obrigação de cada um de construir para si próprio uma situação de vida que seja adequada.

E aí é que está … para que se possa ter uma concepção do que é o adequado é que precisamos fazer uma busca consciente e sincera acerca daquilo que nos é valoroso. Ou seja, a escala de valores que norteiam nossa atitude para com a vida é que serve de leme para nos orientar para as diferentes oportunidades e situações que irão compor nossa existência.

Somos assolados por uma montanha de demandas, “tenho que’s”, padrões,  e posturas socialmente corretas, mas compete ao sujeito saber compor uma postura conciliatória entre o que faz sentido para ele e o que o meio espera que ele faça, ou seja.

Talvez o conceito que esteja subjacente a esse processo seja o de autonomia. O sujeito tem que ter autonomia suficiente para fazer suas próprias escolhas e que lhe dêem a sensação de que está sendo aquele que, de fato, gostaria de ser e não o que os outros gostariam que ele fosse.

Mas a autonomia é vã se não for responsável … para fazer as escolhas é preciso que se messam consequências e que se arque com seus resultados, sejam bons ou ruins.

E é claro que não podemos nos esquecer jamais de que somos seres sociais e portanto o senso de direito / dever,  de respeito ao coletivo, ao ambiente deve estar sempre em pauta.

Em resumo : para não se chegar ao estado crítico de um surto, é necessário cuidar de si próprio, se respeitar, acreditar em seu potencial, buscar alternativas, por-se em movimento, conhecer e se resignar a seus limites. Isso tudo nos âmbitos físico, psíquico, social e espiritual … não adianta cuidar só de uma esfera e esquecer das demais, pois como disse antes, somos complexos e multideterminados.

Dá para perceber quando uma pessoa está a ponto de surtar?

Talvez não seja tão fácil assim, pois a situação de passar do limite pode acontecer em uma situação que não deu aviso prévio, mas existem sim sinais relevantes que devem ser acompanhados pela própria pessoa e pelos familiares como alertas a serem cuidados : variações de humor importantes, alterações de apetite, falta ou excesso de sono, uma postura de “arrogância” ou de que se é capaz de qualquer coisa ou, ao contrário, apatia, “entrega” e impotência frente às demandas normais da rotina, sudorese, alterações no trato digestivo, sistema imunológico, alterações nos hábitos sexuais, etc …

Mas é claro que o discernimento é primordial, não é porque a pessoa teve um evento isolado de um desses critérios que ela esteja fadada a perder o controle emocional, esses sinais podem ser indicativos de um estado de desequilíbrio emocional ou psíquico e que podem ou não chegar a um surto ou o estabelecimento de um quadro de sofrimento psicológico, em ambos os casos é preciso atenção e intervenção pelas vias devidas.

E depois do surto, qual o caminho a seguir?

Bom, agora a situação é outra … Antes a pergunta era “Qualquer pessoa pode ter um surto ?”, a gora a questão é :essa pessoa em questão pode, até porque já teve !

Sendo assim, ela e seus familiares deveram empreender em todas as ações cabíveis no sentido de permitir que ela, primeiro, se reorganize emocionalmente falando. Depois, que sejam colocadas sob controle e que sejam evitadas as situações que outrora a levaram a perda de controle.

Isso não quer dizer ela não possa vir a ampliar seu limiar de competência a lidar com as situações, habilitando-a a voltar a ter contato com elas, mas isso deve ser feito com muito critério e responsabilidade e sob orientação dos profissionais cabíveis no quadro ( psicólogo, psiquiatra, neurologista, etc).

A falta de limites quando criança e a ausência de valores na família ajudam o quadro negativo?

Acredito piamente nisso … aliás as respostas anteriores já flertaram com essa ideia.

A criança e o jovem ao serem estruturados em um ambiente permissivo, desgastado de valores e precário no que diz respeito a concessão de sentido à vida, por meio do ensino fraco, diálogos vazios, cultura devassa, vão constituindo um sujeito que perde a referencia de si próprio como um “autor” de sua vida e ele passa a ser um “ator” de um roteiro de vida que lhe é imposto por outros.

Abandona-se a prerrogativa da conquista de autonomia em prol da heteronomia, ou seja, estar sobre o controle de um outro … prato cheio para se deixar levar por influencias negativas e/ou posturas que respondam muito mais a um processo ideológico do que a um projeto de vida concessor de sentido, realização e senso de integridade.

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2 Comentários leave one →
  1. Etelra permalink
    24/06/2012 20:35

    Entrevista EXCELENTE! Parabéns Flávio Mesquita pela sua percepção inteligente das coisas, processos, pessoas e do fatos (in)visíveis do nosso cotidiano.

    • Flávio Mesquita permalink*
      24/06/2012 21:09

      Olá,

      Obrigado pelo apoio e continue contribuindo com nosso BLOG !

      Abç

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