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Hora de mudar…

07/12/2011

Este é o primeiro artigo que estou escrevendo em meu apartamento novo. Mudei há uma semana. Fazendo as contas, já mudei de casa mais de 30 vezes. Morei em quatro cidades brasileiras e em três países. Mudei de profissão quatro vezes, de estado civil três vezes. Já tive dezenas de projetos de vida, mudei centenas de vezes de opinião e milhares de vezes de idéia. De mudança eu entendo. Ou acho que entendo… 

Descobri, por exemplo, que as pessoas mudam por necessidade ou por desejo. Sentimos necessidade de mudar algo em nossa vida quando as coisas não estão dando certo. Já o desejo está ligado a querer resultados ainda melhores, independentemente de quão bons já sejam os que estamos obtendo. Mudar, portanto, é próprio do ser humano, pois ele sempre tem necessidades e desejos. Será? Vamos analisar algumas contradições que pertencem a esse assunto.

Uma das principais características da nossa sociedade, atualmente, é a crescente velocidade das mudanças. Há tantas, em todas as áreas, que os historiadores estão dizendo que não estamos em um tempo de mudanças, e sim em uma mudança de tempo, como ocorreu na Renascença e na Revolução Industrial. As tecnologias, como o celular e a internet, compõem o principal motor desse fenômeno, mas há outras coisas, como o excesso de informação e a multiplicidade de opções.

Ao contrário do que já foi, hoje são valorizadas as pessoas que mudam. Raul Seixas foi profético quando disse que preferia ser “uma metamorfose ambulante” a “ter aquela velha opinião formada sobre tudo”. É claro que não se cobra de ninguém que seja tão maluco-beleza, mas a estagnação paga pedágio dobrado. Somos estimulados, sim, a ser metamorfoses ambulantes, se não por outro motivo, pelo menos para acompanhar as mudanças do mundo, e estas são cada vez maiores e em velocidade crescente.

Mas há pelo menos duas contradições importantes quando o tema é a mudança. O motivo principal que nos obriga a mudar é a manutenção do status. Eu preciso mudar para continuar sendo competitivo, para manter minha cultura em dia, para ser bem informado como sempre fui, para atender às expectativas das pessoas com quem convivo, para não ser considerado antiquado… Ou seja, preciso mudar para continuar sendo o mesmo. Esse é o primeiro paradoxo.

O segundo, é mais agudo: eu sei que preciso mudar, mas bem que preferia deixar como está. Seria tão bom se tudo ficasse quieto, confortável e seguro… Esse sentimento existe porque qualquer mudança pressupõe movimento, gasto de energia, perigo – e são justamente essas as características que a parte mais primitiva de nosso cérebro está programada para evitar. O racional entende que a mudança precisa acontecer, o emocional precisa ser convencido e, mesmo assim, reluta. É duro sair de uma zona de conforto, que é confortável principalmente porque é conhecida…

Mas não temos alternativa. Devemos conviver com nossos dois eus interiores – o que quer mudar e o que quer permanecer.

Apesar de o assunto ser moderno, ele não é novo. Há mais de 25 séculos viveu, na costa da Grécia, um filósofo chamado Heráclito, que, dizem, vivia angustiado com a velocidade das mudanças. Imagine se ele vivesse hoje!
Heráclito teve duas percepções importantes a respeito do tema. A primeira diz respeito ao que ele chamou de “unidade dos opostos”. Segundo o filósofo, absolutamente tudo na vida é composto por fenômenos, valores ou tendências totalmente opostas, mas que se complementam.

Um exemplo: se alguém diz que um copo de água está meio vazio, enquanto outro afirma que está meio cheio, ambos estão falando sobre o mesmo copo, e não sobre dois. É o mesmo, mas há opiniões opostas a seu respeito. E essas opiniões não são contraditórias, mas complementares, pois o copo está, de fato, meio cheio e meio vazio. A diferença está apenas no ponto de vista.

O que o sábio Heráclito quis dizer com isso é que as oposições são naturais e nem sequer devemos lutar contra elas, pois estaríamos correndo o risco de negar a própria realidade. A lição que tiramos dessa história é que a realidade é instável por conter os opostos, que, por outro lado, são necessários para a construção do todo.

Os opostos geram a instabilidade que provoca o movimento que determina as mudanças. Daí nasce a segunda observação de Heráclito: “Tudo flui, você não pode banhar-se duas vezes no mesmo rio”, pois, na segunda vez, o rio não será o mesmo, uma vez que aquela água já se foi e esta é outra. Ponto para Heráclito. Temos que estar preparados para conviver com os opostos e para nos adaptarmos às novas realidades que surgem o tempo todo.

Mas observe como algumas pessoas têm uma incrível dificuldade para lidar com essas duas situações. E acabam pagando um preço alto por não conseguirem entender a instabilidade dos fenômenos e a oposição dos componentes da realidade. Cuidado! Adaptação não é o mesmo que acomodação. O acomodado não muda, o adaptado muda o tempo todo.

Não precisamos ser metamorfoses ambulantes, mas não podemos ter a velha opinião formada, imutável, irremovível, pétrea. Há uma diferença entre “dualidade” e “impasse”. Os opostos de Heráclito compõem dualidade: dia e noite, vida e morte, homem e mulher, inverno e verão. A dualidade pressupõe o uso de “e”. O impasse vale-se do “ou”. Viveremos tão melhor quanto mais aceitarmos o uso do “e”, que pressupõe soma, não divisão.

Mudanças são boas quando trazem acréscimos para nossa vida. O duro é perceber que ir para outro emprego, acabar com um casamento falido, promover alterações no visual e criar novos hábitos de vida, entre outras, são mudanças que acrescentam. Não significam perdas, e sim ganhos… .
As mudanças podem ser traumáticas ou amigáveis, isso vai depender da relação que construímos com elas. E, é claro, vai depender também da expectativa que temos do seu resultado.

Ninguém gosta de mudar para pior. Ou mudamos por conta própria, e sempre para melhor, ou as mudanças acontecerão à nossa revelia – e, nesse caso, não temos garantia de que será para melhor.

(Eugenio Mussak – revista Vida Simples – Novembro de 2006)


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11 Comentários leave one →
  1. MARINA MORENA permalink
    04/01/2013 12:50

    Grata pelos bons textos e espaço para nossa manifestação . Grande Filósofo, Heráclito –
    O Obscuro . Tudo flui inexoravelmente, movimento perpétuo. Por que petrificar posições,opiniões, sentimentos? Sejamos como as nuvens brancas e levemente caminhemos. Att. Marina Morena.

    • Patrícia Mantovani permalink*
      04/01/2013 18:17

      Olá Marina, obrigada pelo comentário e continue participando. Abço

  2. Jovita Peixoto Divino permalink
    11/09/2012 13:10

    Adorei o texto. Muito interessante, após ouvir de um professor em sala de aula, vim conferir pessoalmente e imprimir para compartilhar com outros pessoas, pois acho isso muito importante.Obrigada por compartilhar.Pesso que nos compartilhe sempre de coisas interessantes assim.Abraço!

    • Patrícia Mantovani permalink*
      12/09/2012 00:22

      Muito obrigada Jovita, é muito importante para nós saber que estamos ajudando de alguma forma.
      Gde abço

  3. Priscila permalink
    29/12/2011 16:32

    Belíssima reflexão… Minha primeira leitura do blog e adorei. Espero poder ler mais textos tão bons quanto estes!

    • Patrícia Mantovani permalink*
      06/01/2012 11:49

      Obrigada Priscila.
      Continue participando.
      Abço

  4. 08/12/2011 00:44

    Me arrebatastes tão logo dava por concluído uns versejos cacofônicos:

    O que está em meu coração não importa
    Meu coração é torto
    E torto fica o que lhe toca

    No meu peito jaz um abismo
    Buraco Negro a atrair
    Que a tudo quer destruir

    Minhas artérias bombardeiam mentiras
    Mas só há duas hermenêuticas
    A infeliz ou a hipócrita

    Meu coração não importa
    A propósito
    Nada mais concreto que um simulacro bem representado!

    • Patrícia Mantovani permalink*
      15/12/2011 09:30

      Obrigada pela participação.
      Abço

      • 15/12/2011 10:04

        Não há de quê! Deveria eu agradecer pelo espaço… e agradeço. Como pode ter visto, já estive mais participante em outros post’s com o Flávio. E a assim me vou entre amplos espaços e restritos tempos. Até mais e, reitero, obrigado!

  5. Douglas permalink
    07/12/2011 09:48

    Muito interessante o texto, obrigado por compartilhar.

    • Patrícia Mantovani permalink*
      15/12/2011 09:22

      Obrigada vc Douglas pela sua participação.
      Abço

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