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Mentira … vamos tentar falar algumas verdades sobre ela !

25/11/2010

Mentira e sua significação, recorrendo à conceituação formal. Assim como de seu oposto, ou seja a Verdade.  Segundo o dicionário Michaelis :

men.ti.ra (lat mentita, com dissimilação) sf 1Ato de mentir; afirmação contrária à verdade, engano propositado. 2 Hábito de mentir. 3Engano da mente, engano dos sentidos, falsa persuasão, juízo falso. Antôn: verdade.

ver.da.de (lat veritate) sf 1 Aquilo que é ou existe com toda a certeza. 2 Conformidade das coisas com o conceito que a mente forma delas. 3 Concepção clara de uma realidade. 4Sinceridade, boa fé. 5 Juízo ou proposição que não se pode negar.

Reforça a idéia, no senso comum, de que se tratam de duas dimensões diametralmente opostas : A Verdade (muitas vezes tida como absoluta) e a Mentira. Não existe meia verdade e nem meia mentira … ou é falso ou é verdadeiro.

Mas se olharmos com cuidado a partir de uma perspectiva filosófico / psicológica,  o “real”, ou a realidade objetiva, só existe fora do sujeito. A partir do momento em que ele procura apreender cognitivamente esse objeto real, ele irá incorrer em algum grau de deformação subjetiva.

Muitas variáveis influenciam nesse processo : sua capacidade cognitiva, sua história de vida, a cultura na qual ele está inserido, condição psico/social do seu atual momento histórico, etc. Raramente um mesmo fato testemunhado por duas pessoas é relatado exatamente da mesma forma, muito embora essas pessoas não estejam mentindo.

Nietzsche se refere a verdade como sendo a maneira pela qual eu encontro provas de que aquilo no que eu acredito é “real”. Seria basicamente, e não muito mais do que isso, um ponto de vista sustentável naquele momento histórico.

É fácil ver que a verdade é uma construção histórica e dinâmica, muito do que já foi tido como inexorável em outros tempos, hoje é tido como absurdo, vide a compreensão da Terra como centro do universo, as leis da alquimia, ou mesmo procedimentos médicos antes largamente reconhecidos no trato de doenças. E aí citamos apenas questões de cunho científico, imagine se entrarmos na seara da moral, da ética, religiosidade, etc.

Sendo assim não é como preto ou branco, existem inúmeras nuances de tons de cinza entre esses supostos limites dicotômicos de Verdade X Mentira.

Uma referência importante na distinção Verdade X Mentira é o fato da deliberação daquele que se manifesta : ele pode estar intencionalmente deformando os fatos de forma a conseguir chegar a algum objetivo de seu intento ou ele pode, de fato, acreditar naquilo que diz, embora possa ser evidente a distinção entre seu relato e a suposta realidade objetiva.

Patologicamente, poderíamos citar condições mentais tais como a esquizofrenia ou quadros paranóides onde o sujeito tem uma ruptura com a realidade e fica a mercê de fantasias e alucinações que são tomadas como verdadeiras. Escutar vozes e ver entidades podem ser elencadas como exemplo, mas poderíamos dizer que o sujeito está mentindo ? Ele é refém de uma percepção deformada da realidade (patologia), mas não está deliberadamente alterando seu discurso.

Já em um quadro de perversão ou sociopatia (psicopatias), o sujeito poderá recorrer a sua capacidade de criar uma realidade alternativa com intuito de enganar e seduzir pessoas e assim chegar a seus objetivos.

Nesse caso a mentira é um recurso usado intencionalmente, pois o sujeito sabe que está incorrendo nela e, muitas vezes, não acessa um julgo moral que o sinta culpado por isso … os fins justificariam os meios em altíssima intensidade.

Vale lembrar que os psicopatas não são apenas os assassinos em série a la Hannibal Lecter’s holiwoodianos … eles podem estar muito mais perto do que imaginamos, muitas vezes são pessoas “corretas” em sua apresentação social, inteligentes, sedutoras e bem sucedidas, mas não tem a distinção moral de não permitir-se incorrer em atos deliberadamente prejudiciais aos outros para chegar a seus objetivos.

Existem graus de severidade e nem sempre o psicopata assume a imagem de um serial killer ou um maníaco sexual.

Mas e o 1° de Abril ? É uma data comemorativa mais do que aceita culturalmente e pode-se dizer mesmo que faz uma apologia à mentira. Como podemos interpretar isso ?

Sob um viés psicológico é uma ocasião bastante rica, pois faz uma alusão direta com a possibilidade outorgada pelo coletivo, para que naquele dia, é permitido e até desejável que se minta … Claro que não se trata de qualquer mentira, grave e com potencial de dano a outras pessoas, mas não deixa de ser um flerte com o que no resto do ano é tido como imoral.

Carl Jung, o precursor da psicologia analítica, oriunda e dissidente da psicanálise freudiana, trabalha com maestria o conceito da Sombra. Resumidamente, a sombra é o resultado de todo material que é reprimido pelo sujeito ao longo de sua vida. Essa repressão se faz pela via do desejo, ou necessidade mesmo, do sujeito de ser aceito pelo seu meio e pelos seus, assim ele projeta um papel social (persona) adequada, escondendo debaixo do tapete tudo aquilo que faz parte dele, mas que não é tido como aceitável.

Jung afirma, de forma inquietante, que “o caminho da iluminação de uma pessoa não se faz pela via de projetar imagens luminosa, mas pela integração da escuridão”, ou seja, é preciso conhecer-se a fundo … o mais possível.

É desejável que se reconheça o seu lado menos conveniente ou socialmente valorizado. É necessário saber do que se é capaz, qual o potencial negativo que se tem, enfim aceitar que há um lado que não está à luz da consciência, mas que não deixa de ser menos real por conta disso.

Fingir que ele não existe ao invés de enfraquecê-lo acaba por fazer com que ele ganhe mais força e se manifeste de forma intempestuosa e sem controle. Quem nunca ouviu alguém dizer : Nunca imaginei que eu era capaz disso ! ou Parece até que eu estava tomado pelo diabo!

No Dia da Mentira, há a possibilidade de abrir pelo menos uma brecha para essa dimensão tão profundamente recalcada, flerta-se com uma transigência mais expandida a exemplo do que acontece, por exemplo, durante o carnaval. Muitos dos comportamentos que são adotados durante esse período só fazem sentido (socialmente falando) dentro daquele contexto e serve como uma válvula de escape do indivíduo que se vê na obrigação de um auto policiamento muito maior no resto do ano.

Enfim, a Mentira pode sim ter algum valor positivo, seja pelo critério da jocosidade, o lado lúdico do 1° de Abril … ou seja por um viés de permitir-se deparar com a Sombra.

Na clínica psicológica cognitivo comportamental é muito comum encontrar situações de mentira, deliberadas ou não e assumidas ou não. O trabalho feito é no sentido da análise funcional dessa mentira. A que benefício direto ou indireto ela leva ? É uma fuga ? Uma esquiva ?  Permite que a pessoa se exima de estímulos aversivos ? Há aí um movimento de não tornar-se responsável pelos próprios atos, crenças ou atitudes e daí a necessidade de mentir ?

Relacionamentos entre casais, por exemplo, é um terreno extremamente rico nas questões ligadas a mentira ou a omissão … como preservar um alto grau de individualidade sem nunca recorrer a omissão ? Qual a fronteira entre a omissão e a mentira ? Há situações em que é melhor omitir (ou mesmo mentir) em prol da saúde geral da relação ?

Sem várias as perguntas sem resposta que, mesmo não podendo ser exauridas em respostas, valem a pena nortear reflexões de aprofundamento do conhecimento de si próprio …

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