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Algumas questões sobre a Hipocondria e a Psicossomática

25/11/2010

– De que forma um mal físico se origina de um distúrbio mental (se é que se pode utilizar esse termo)?

Todo mundo já ouviu, pelo menos uma vez na vida, aquele provérbio do poeta latino Juvenal: Mens sana in corpore sano. E parece mesmo haver uma compreensão inconteste, no senso comum, de que para ter uma mente sã é preciso, no mínimo, “estar de bem” com o próprio corpo.

Ora, se isso é aceito tão naturalmente, é de se esperar que o caminho contrário também faça sentido, ou seja, uma mente inquieta, perturbada e com pensamentos negativos e recorrentes pode também, por sua vez, interferir na saúde do corpo. É como se houvesse uma “avenida de duas mãos” onde mente e corpo interferem mútua e reciprocamente.

A ciência contempla essa investigação através da psicossomática (de psiqué, mente e soma, corpo), braço da medicina que justamente objetiva compreender a capacidade que existe do psicológico interferir no corpo a ponto de ser a gênese de doenças somatizadas.

A partir deste referencial, vários são os sintomas, e mesmo doenças, que são entendidas como capazes de serem agravadas, mantidas ou até originadas a partir da dimensão psicológica da pessoa. Ou seja, de como este sujeito lida com sua existência, suas demandas, seus limites, conquistas, fracassos, etc.

Apenas à titulo de exemplo, podemos citar doenças do trato digestivo como a úlcera, refluxo gástrico e constipação, como estando intimamente ligadas à condição psicológica do sujeito. Quadros de ansiedade podem remeter a distúrbios do sono ou dificuldades sexuais, assim como stress prolongado pode deprimir o sistema imunológico, abrindo espaço para a entrada de uma série de doenças oportunistas.

O câncer merece destaque, pois já é amplamente aceito pela OMS como sendo multideterminado e a questão psicológica faz parte do roll de variáveis relevantes , sendo assim o psicólogo deve fazer parte da equipe multidisciplinar que cuida do paciente oncológico.

A forma como a pessoa é capaz de lidar com questões de apego, rancor, descontentamento profundo ou incapacidade de perdoar, entre outras, são áreas a serem investigadas e cuidadas como uma forma de melhorar o prognóstico de remissão do câncer.

Vale citar que no Hospital do Câncer em São Paulo – referência no pais – todo paciente deve, obrigatoriamente, passar por avaliação e acompanhamento psicológico como procedimento. Não raro até os familiares são trazidos para esse contexto, visto que toda a família fica vulnerável e pode, se não cuidada e orientada, vir a sofrer mais e agravar o quadro vivido por todos.

– Como as pessoas podem livrar-se de certos desconfortos relacionados à saúde e ao corpo por meio de uma mudança comportamental?

Pensamos que o conceito fundamental, que permitirá o início desse movimento, seja o da responsabilização. Ser responsável vem de estar apto a responder por e isso quer dizer que a pessoa tem que se habilitar a conhecer as conseqüências de suas ações, comportamentos, decisões e atitude de uma forma geral para com a vida. O que por incrível que pareça  não é tão simples assim.

E como se consegue isso? Através da reflexão profunda e do auto-conhecimento que são justamente os dois pilares investidos durante um processo psicoterápico.

Ao longo da vida, a pessoa pode desenvolver mecanismos automáticos, ciclos viciosos que se retroalimentam na sua relação com as outras pessoas e ela acaba se sabotando ao reforçar padrões que são justamente aqueles que ela mais desgosta, tanto na sua forma de agir com os outros, quanto na que recebe em resposta destas mesmas pessoas.

E aí o corpo responde… sintomas vão se manifestando e se agravando como se fossem uma forma de dizer a si próprio que Chega! Não agüento mais… O importante é romper esse ciclo cedo o bastante para evitar a cronificação de doenças que ai passam a ser muito mais difíceis de serem combatidas.

A partir da responsabilização é possível estabelecer um referencial sustentável de qual é o elenco de prioridades da pessoa, do que ela está fazendo consigo própria (e com aqueles com quem ela priva) e daí reorientar suas ações através de mudança comportamental, norteada a uma direção mais positiva, construtiva e libertadora.

O corpo e sua saúde serão automaticamente beneficiados a medida que isso vá sendo conquistado, mas não adianta achar que bastam simples promessas, isso exige trabalho, engajamento e muito esforço.

– Que mudança deve ser essa?

Em primeiro lugar, deve ser uma mudança que esteja alinhada com uma base de coerência do sujeito para consigo próprio. É necessário começar a mudar a forma de pensar sobre as coisas: os pensamentos negativos e recorrentes deverão ser substituídos por pensamentos positivos e mais saudáveis.

Após uma análise funcional dos comportamentos do sujeito, poderão mostrar-se necessárias mudanças com relação a hábitos alimentares, prática de esportes, ingestão de bebidas, drogas ou tabagismo, relacionamentos maritais, hábitos de consumo, de perdoar a si próprio e aos outros, de expandir horizontes profissionais, de troca de profissão, etc. Em resumo: de como é a sua forma de interação consigo própria, com as outras pessoas e com o mundo em geral.

A lista de mudanças possíveis é infinita e contempla a diversidade e complexidade das questões ligadas ao ser humano. Só para citar um exemplo, é muito comum a pessoa começar a desenvolver mecanismos de fuga ou esquiva quando está descontente com situações ligadas a trabalho ou a exposição.

Lembra daquela cena clássica do filme Curtindo a Vida Adoidado (1986) com Matthew Broderick, quando ele resolve tirar o dia de folga e simula um mal estar para não ir a escola? Com direito até a encostar o termômetro na lâmpada…

Pois é, pode ser que não cheguemos a tanto, mas muitas vezes uma dor de cabeça ou de estomago pode ser um sinal de descontentamento com a necessidade de ter de enfrentar determinadas situações. Sendo assim, essa dor traz consigo um ganho indireto ao sujeito e ele poderá desencadear um padrão de utilização recorrente dessa “dor aliada”. Isso vai aproximando o sujeito de uma condição geradora de doenças e a cronificação pode ser o final desta perigosa via.

Apenas para não deixar a pergunta sem uma resposta pontual, diria que uma mudança sempre cabível de ser investida é da busca pela assertividade. O que habilita o sujeito a lidar com as outras pessoas de forma a promover uma posição conciliatória e sustentável, sem deixar-se levar pela vontade do outro e nem sendo impositivo ao outro com seu próprio desejo.

Ser assertivo é uma das maneiras mais eficazes de estabelecer vínculos saudáveis… essa é uma mudança que sempre vale a pena!

– Em que casos é possível curar-se e em que ocasiões uma terapia só ajuda a amenizar o problema?

A gravidade da doença dá o tom da necessidade dos recursos necessários para lidar com ela. A multidisciplinaridade é a única via capaz de compreender o ser humano a partir de todos os seus viéses, sendo assim é possível que sintomas já amplamente investigados sem sucesso pelo viés fisiológico, por exemplo, possam ser eficazmente tratados psicologicamente.

Mas não adianta querer se curar de uma doença relevante sem tomar todas as ações cabíveis e necessárias. Lembra-se da responsabilização ? Aqui ela também deve ser levada a risca. A pessoa deve estar, de fato, engajada em seu processo de cura e responsavelmente lançar mão dos recursos de que ela dispuser.

Outra questão importantíssima que pode ser levantada a partir dessa pergunta é a do encaminhamento. Compete aos profissionais da área de saúde estarem atentos e fazer os encaminhamentos devidos, de forma a propiciar ao paciente um tratamento que contemple todas as demandas de seu quadro clínico.

Podemos pensar em um médico encaminhando para um fonoaudiólogo, um fisioterapeuta encaminhando para um dentista, um ortodontista encaminhando para um psicólogo, este encaminhando a um psiquiatra e assim por diante. Não é mais cabível pensar em uma prática responsável que não se apóie devidamente nos demais alicerces da área de saúde e isso deve ser tanto entendido pelo profissional quanto pelo cliente que não pode exaurir-se de buscar o tratamento que lhe seja mais produtivo.

A dica é: critique, confronte, pergunte… entenda o seu processo! O profissional de saúde não se mostra aberto a responder dúvidas pertinentes? Insista… ou então mude de profissional.

– Pessoas hipocondríacas conseguem livrar-se de maus pensamentos sozinhas ou necessitam de acompanhamento profissional?

Difícil responder a essa pergunta sem incorrer em um pré-julgamento. Na psicologia aquela máxima de que cada caso é um caso é mais do que verdadeira e seria arriscado afirmar que sim ou que não. O tempo que já transcorreu desde que essa pessoa se deu conta de que é hipocondríaca (sim, pois ela pode ser e não achar que é), a gravidade dos pensamentos, os recursos de que ela lança mão para combater as “doenças” que ela fantasia, etc, são indicativos importantes a serem investigados.

Mas acreditamos que uma avaliação psicológica, conduzida por profissional competente, seria de grande valia no sentido de entender o quadro como um todo e propor formas eficazes de enfrentamento.

Tive contato, por exemplo, com um senhor que usava anti-histamínicos (remédio antialérgico conhecido por “dar sono”) buscando seu efeito colateral ao invés do resultado esperado do medicamento… nem crise alérgica ele tinha… usava o remédio apenas para conseguir dormir.

Será que esse senhor se considera um hipocondríaco? Talvez sim, talvez não, mas o fato que um processo de reflexão promovido pela terapia poderia ter contribuído grandemente para que ele entendesse as conseqüências de seus hábitos e pudesse lançar mão de outros recursos de enfrentamento muito mais eficazes para a questão da falta de sono.

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