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Reportagem do Fantástico de 11/04 sobre a relação Paciente / Médico

13/04/2010

O assunto “relação terapêutica” esteve, está e estará sempre presente em temas ligados à psicologia.

Muito tem sido dito, e trata-se mesmo de um conceito absolutamente fundamental para o bom desenvolvimento de um processo terapêutico, sobre a necessidade do estabelecimento de um bom vínculo entre o cliente e seu cuidador.

É claro que no caso de uma psicoterapia, isso é levado ao seu mais alto grau de relevância, visto que a intervenção se faz principalmente pela via do falar sobre os processos causadores de sofrimento psíquico.

Mas o vínculo com qualquer cuidador não deixa de ser extremamente importante. Ora, trata-se de um serviço prestado ao sujeito em momento de fragilidade, sofrimento, dúvidas e até mesmo medo, no que se refere à prognósticos. Por outro lado, é notória a degradação que tem sofrido o vínculo estabelecido entre o paciente e o médico.

Não se trata aqui de culpabilizar a classe médica. Aliás esse é um movimento sempre repudiado pela psicologia: o que se busca é a responsabilização e não a culpabilização. É óbvio que o verdadeiro colapso em que se encontra o serviço de saúde no Brasil não pode ser creditado a um fator único ao sabor de um bode expiatório.

Faz-se necessário a expansão da investigação para uma perspectiva ampla e o mais abrangente possível de todos os fatores que sobre ela influem. Nesse elenco de fatores podemos citar rapidamente falta de recursos (humanos, técnicos e de infra-estrutura), má remuneração, má administração, capacitação precária de profissionais, excesso de demanda pelo serviço (pelo crescimento desmedido de grandes centros sem o devido acompanhamento de investimento em hospitais), etc.

Todos esses critérios são relevantes e poderiam gerar horas de discussão, investigação e, infelizmente, muita frustração. Mas nesse elenco deixei propositalmente de fora um critério importantíssimo e que está diretamente dentro da capacidade de ação de cada um.

Trata-se da demanda que é sinalizada pelo cliente no momento da consulta. A referência desta reportagem me foi encaminhada por um cliente e, tenho certeza, com um sabor de constatação de que muito do que temos conversado em seu processo terapêutico, felizmente reverbera com uma percepção cada vez mais arraigada em um número crescente de pessoas que lançam mão de serviços médicos.

O que muito discutimos na clínica é um misto de dever e direito que o sujeito tem de se colocar no momento da consulta com uma postura que sinalize ao médico que ele precisa e ser tratado com o devido respeito, cuidado e zelo.

A urgência que permeia os atendimentos em geral foi forjando ao longo do tempo uma conformação cada vez mais superficialista, rápida, prescritiva e desumana até, do momento da consulta médica. Leva-se cada vez menos tempo da entrada do paciente na sala de consulta até o momento em que ele sai pela porta, frustrado, com uma receita ou uma requisição de inúmeros exames, às vezes desnecessários.

Em contrapartida, leva-se cada vez mais tempo na sala de espera, visto que a “hora marcada” perdeu quase que por completo sua função e poderia até ser cômica, caso não fosse trágica na sua concepção. Atire a primeira pedra quem nunca ficou mais de uma hora (não raro passando de 2!) esperando por uma consulta que na hora H (seja ela qual for) não dura mais do que 10 minutos …

É preciso fazer tudo que está ao alcance no âmbito do indivíduo para não ser cúmplice com esta conformação, reforçando um padrão crescente de afastamento, desumanização, arrogância e desrespeito para com o vínculo.

E como se faz isso ? Tomando um atitude que primeiro tenha o poder de desconstruir as barreiras já firmemente estabelecidas e depois passe a investir em uma perspectiva mais satisfatória, sustentável e promissora para um bom vínculo. Ser assertivo é muito importante, não deixando-se ser atropelado por uma postura inaceitável que venha a ser adotada pelo profissional.

Coloque-se, questione, peça explicações, solicite que ele dê mais tempo a você … Parece muito pouco ? Fora das suas possibilidades ? Ridículo até ?

Se a sua resposta é SIM para alguma dessas perguntas, procure fazer uma investigação da sua própria concepção da figura do médico … Ele te causa constrangimento ? Receio ? Medo talvez ? Você julga ele melhor,  ou mais importante do que você ? O tempo dele é tão valioso que está certo ele conceder apenas alguns momentos a você ? É cabível a ele adotar uma postura arrogante para com você ? Você está disposto a receber passivelmente seja o que for que ele tenha a oferecer para você ?

Essas são perguntas apenas à título de exemplo que podem orientar um processo de auto questionamento e posteriormente um exercício prático no que diz respeito a preparar-se para uma consulta, adotando deliberadamente uma postura mais firme e que sirva de feedback para que ele também procure melhorar na atitude para com sua clientela.

REFLEXÃO : a postura arrogante, fria e que causa afastamento pode muito bem ser um mecanismo de defesa que o profissional assume de forma a se proteger das demandas que sua profissão lhe impões e que ele não esteja apto a dar conta. Mostrar a esse profissional que sua atitude não é aceitável é UM FAVOR QUE SE FAZ A ELE, uma vez que dessa forma ele poderá buscar capacitar-se melhor para uma prática mais eficaz.

Leia a matéria completa no site da Globo e assita o vídeo da reportagem que foi ao ar no Fantástico clicando no link :

http://g1.globo.com/Noticias/Brasil/0,,MUL1565570-5598,00-NOVO+CODIGO+DE+ETICA+BUSCA+MUDAR+RELACAO+MEDICOPACIENTE+NO+BRASIL.html

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4 Comentários leave one →
  1. 14/06/2010 12:45

    OLÁ! GOSTARIA DE PARABENIZÁ-LOS PELO SITE.
    SOU PSICÓLOGA, TAMBÉM ANALISTA DO COMPORTAMENTO E ESTOU INICIANDO A ELABORAÇÃO DE UM SITE CONTANDO UM POUCO DAS ATIVIDADES PROFISSIONAIS QUE REALIZO NUM DEPARTAMENTO DE MEDICINA PREVENTIVA EM RIBEIRÃO PRETO E ABORDANDO ASSUNTOS DA PSICOLOGIA EM GERAL. A VISITA A ESSE SITE ME DEIXOU COM MAIS CRIATIVIDADE E ENTUSIAMO PARA SEGUIR ASIANTE. OBRIGADA. ABRAÇOS, MICHELLE

    • Flávio Mesquita permalink*
      14/06/2010 14:31

      Olá Michelle, muito obrigado pelas suas palavras. Foi ótimo receber seu reconhecimento. Estamos a disposição para contribuir com o que for necessário nesse seu projeto. Mandei um e-mail para vc, pois creio que temos interesses em comum que podem ser desenvolvidos, ok ?

      Abraço

  2. Daniel Alves permalink
    13/04/2010 13:08

    Quero crer que a “pedra fundamental” está lançada. Mas… precisa funcionar! A participação de todos os envolvidos será crucial para que toda essa teoria passe à prática.
    Esse negócio de “lei que pega” e “lei que não pega” precisa ser erradicado do vocabulário brasileiro. Quem promove e quem fiscaliza o cumprimento das mesmas, precisa deter IDONEIDADE suficiente para tal, sob pena da referida lei se tornar “natimorta”.
    Algo que não sei se foi contemplado na lei é a mania de andar na rua ou adjacências dos estabelecimentos de saúde, com o “avental” ou guarda-pó, estetoscópio ou algo que satisfaça a vaidade desse profissional em se mostrar “seu dotô”. Já foi noticiado e demonstrado sob a ótica de laboratórios o quanto é prejudicial em termos de contaminação por vírus e bactérias, o que, em parte, explica determinados casos de “INFECÇÃO HOSPITALAR”.
    Quer ser notado e reconhecido como um profissional CAPAZ? Trabalhe e exerça a capacidade, no trato com os seres humanos que buscam alívio para os males que o afligem. Não queira “empurrar goela abaixo” uma autoridade da qual não está investido.
    Lembre-se que RESPEITO não se impõe; se conquista no dia a dia e no desempenho das funções para as quais prestou juramento.
    A vida não pode ser tratada como uma lâmpada que queima, pois a mesma se repõe, mas a vida, é o bem maior que deve ser preservada a qualquer custo e enquanto recursos houverem. Que não haja a “desensibilização” pelo fato de conviver diariamente com os limites da “fronteira” entre a vida e a morte. A dignidade do paciente e familiares deve SEMPRE ser levada em consideração para que o vínculo humano se mantenha como ferramenta na busca pelo bem estar de todos.
    Sinceramente, espero que a prática siga o mesmo discurso da teoria e que possamos chegar num ponto em que, ao se buscar um profissional médico, haja a esperança de se encontrar um aliado e não o cão que morde o dono.

    Cidadania se exerce quando são conhecidos os direitos, mas acima de tudo, quando se respeita os deveres.
    Abraço a todos.

    • Flávio Mesquita permalink*
      13/04/2010 13:25

      É isso aí Daniel. Sabemos que você tem um grau de expectativa grande (e merecido) e precisa dar a sua contribuição fazendo-se valer desse direito a partir da relação que estabelece com o profissional da área da saúde. Não estou dizendo que seja fácil a empreitada, muito ao contrário, mas é mais do que necessária e diz respeito a uma contribuição para o ganho a nível não só individual, mas tb do coletivo. É um “guerra”que se ganha por batalhas no dia a dia, investindo em uma perspectiva melhor do que aq eu vivemos no presente.

      Obrigado pela sua participação no BLOG, continue contribuindo sempre !

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