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Paciente com Aids sofre mais por questões psicológicas do que com ação do HIV

01/12/2009

Do UOL Ciência e Saúde

Um estudo realizado com pessoas em tratamento contra Aids no Brasil mostra que os soropositivos sofrem mais com problemas relacionados a interação social do que com a ação do vírus no organismo. Os números fazem parte da pesquisa “Percepção da qualidade de vida e do desempenho do sistema de saúde entre pacientes em terapia antirretroviral no Brasil”, divulgada nesta terça-feira (1º), Dia Mundial de Luta Contra Aids.

A pesquisa, realizada pela Fundação Oswaldo Cruz em 2008 com 1.260 pessoas, indica que 65% dos pacientes avaliam seu estado de saúde como bom ou ótimo, número que supera o da população geral, que é de 55%. Em relação a portadores de outras doenças crônicas, o contraste é ainda maior, já que só 27% delas classificam sua saúde como boa ou ótima.

No entanto, quem está em tratamento com o coquetel anti-Aids sofre mais com problemas psicológicos. Entre as soropositivas, 33% afirmam ter grau intenso ou muito intenso de tristeza ou depressão e, 47%, grau intenso ou muito intenso de preocupação e/ou ansiedade. Entre os homens, o índice é um pouco menor: 23% e 34%, respectivamente. Na população geral, apenas 15% da população relata um grau intenso ou muito intenso de tristeza ou depressão. E a ansiedade é queixa de 23% das pessoas.

Preconceito

A análise das entrevistas também mostra que os pacientes de Aids tem um nível de educação superior ao da média da população brasileira. Apesar disso, a distribuição de renda é semelhante. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad-2006), cerca de 67% da população brasileira, com 18 anos ou mais, tem rendimento mensal menor que dois salários mínimos, proporção semelhante à encontrada entre os pacientes de Aids (69%).

O estudo revela que ainda existe muito preconceito e discriminação em relação ao HIV, já que mais de 20% dos entrevistados relataram ter perdido o emprego após o diagnóstico. Na ocasião da pesquisa, 58% dos soropositivos não estavam trabalhando (55% entre os homens e 62% entre as mulheres).

Entre os pacientes homens, aposentadoria por doença (31,3%), incapacidade (14,7%), e recebimento de auxílio doença (24,6%) foram os principais motivos alegados para não estarem trabalhando. Entre as mulheres, 28% são donas de casa, 15,4% são aposentadas pela doença, 11% relataram incapacidade para o trabalho, e 15,4% recebem auxílio doença.

Influências

Os pesquisadores que conduziram o estudo desenvolveram um modelo estatístico para verificar os principais fatores associados à autoavaliação do estado de saúde como excelente ou boa. Fatores sociais como escolaridade e renda impactam positivamente. Por outro lado, estar aposentado por motivo de doença, incapacitado para o trabalho ou recebendo auxílio doença diminui em 55% a chance de ter boa autoavaliação do estado de saúde.

A presença de sintomas da doença também reduz em 40% a chance de autoavaliação positiva. Ter iniciado o tratamento a partir de 2007 também é um fator negativo, provavelmente porque esses pacientes ainda não recuperaram seu sistema imunológico devido ao pouco tempo de tratamento e ainda estejam sofrendo com os efeitos colaterais do início do tratamento e do diagnóstico recente.

Perdas e ganhos

A pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz também avaliou os ganhos e perdas dos soropositivos após o diagnóstico. Entre os entrevistados, 43,5% informaram que depois da descoberta da doença passaram a ter melhor assistência à saúde e 18,6% afirmaram ter mais suporte social. Entre as perdas, a mencionada pelo maior número de pessoas foi a piora das condições financeiras (36,5%), seguida da aparência física (33,7%).

Os resultados da pesquisa são representativos de toda a população em tratamento antirretroviral, atualmente estimado em cerca de 200 mil pessoas.

Campanha

A divulgação do estudo coincide com o lançamento, pelo Ministério da Saúde, da campanha “Viver com Aids é possível. Com o preconceito não”. No site elaborado para a ocasião, é possível deixar mensagens, fotos e vídeos sobre o tema.

A campanha também contou com a participação do artista plástico paulista Vik Muniz, radicado em Nova York, que produziu três obras de arte inspiradas no combate ao preconceito aos soropositivos. Os quadros foram doados ao Museu de Arte de São Paulo (Masp).

Acessado em :

http://noticias.uol.com.br/ultnot/cienciaesaude/ultnot/2009/12/01/paciente-com-aids-sofre-mais-por-questoes-psicologicas-do-que-com-acao-do-hiv.jhtm

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3 Comentários leave one →
  1. Mauro P. de Mesquita permalink
    08/12/2009 11:43

    Penso que estatísticas, assim como as apresentadas, quase sempre podem ser interpretadas de mil maneiras diferentes.

    A meu modo de entender este problema, que se focaliza na queda de auto-estima parece-me muito complexo.
    Pergunto aos ilustres produtores deste excelente BLOG.: Seria fantasia ou simplificação da questão perguntar se aqueles que contraíram o HIV, (claro isentando os que foram contaminados por acidentes, tais como transfusão de sangue impuro etc e outros) já estariam fazendo parte de um grupo que já padecia de alguma forma de baixa auto-estima? Esta falta de se cuidar! Este modo descuidado com a própria saúde, com próprio corpo. Não seria isso já um vetor dirigido à baixa auto-estima? Que diriam pesquisas sobre a auto-estima destes portadores se investigados antes da contaminação? O única caso com que convivi de um parente já mostrava claramente esta condição, o que logicamente não pode levar a qualquer conclusâo. Apreciarei ler seus esclarecimentos a respeito de minha dúvida.

    • Flávio Mesquita permalink*
      08/12/2009 13:46

      Mauro, seus comentários são sempre muito pertinentes e com certeza são fruto de uma concepção bastante elaborada de “enxergar o mundo”.

      Concordo com a hipótese por você levantada, ou seja, seria cabível pelo menos elucubrar, que um percentual relevante de pessoas que se vulnerabilizaram ao contágio do HIV (mas aqui tomando-se muito cuidado para não generalizar e incorrer em injustiças como aquelas que vc mesmo já levantou de contaminação por trasnfusão, etc), muito provavelmente já possuíam um viés de baixa auto-estima manifesto por hábitos pouco cuidadosos consigo próprio ou até mesmo com um caráter “suicída”, como a prática de sexo inseguro, utilização compartilhada de seringas para o uso de drogas, etc.

      Poderíamos daí fazer inúmeros desmembramentos como a perspectiva de que essas pessoas hipotéticas, por já terem essa característica, poderiam, por exemplo, ter menos aderência a processos terapêuticos que lhe proviriam uma qualidade melhor de sobre vida pós contágio.

      Toda reflexão é positiva e válida, mas creio que o mote do artigo está justamente no fato de que o “como” a pessoa lida com sua condição especial irá influenciar no sucesso do tratamento. Nesse critério, poderíamos, também a título de elucubração, imaginar que mesmo pessoas que sofreram a contaminação de uma forma totalmente acidental, poderiam aprofundar essa “vitimização” e assumir uma postura deprimida de entrega à própria sorte (ou azar) sem lutar de forma engajada pela conquista de uma qualidade satisfatória apesar do HIV+.

      A percepção de que o amparo psicologico é determinante como um dos pilares necessários ao tratamento multidisciplinar de patologias ou condições como o HIV+ é que me parece ser uma grande conquista.

      Um abraço

      • Mauro P. de Mesquita permalink
        09/12/2009 18:56

        Flávio, compreendi melhor o enfoque da questão. Entendi que, sem dúvida, o apoio psicológico será essencial para ajudar o paciente na elevação de sua auto-estima.
        Agradeço a clareza de sua explicação.
        Mauro

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